sexta-feira, 14 de março de 2008

Um Lindo Poema da poeta Maramarina - de Aracaju

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.Cabeleira*
- maramarina

Eu ando por aí com meu cabelo alto, africano crespo, rebelde natural,
Ameaçador aos lambidos, escovados, presos, embriagados em gel e cremes sem enxágüe, ideal para todos os tipos de cabelos.
Abaixo as presilhas!

Eu ando por aí de cabelos secos, soltos.
O mundo me olha por isso.
As crianças têm medo de mim.
Umas olham impressionadas: sou a mulher gorila do circo (Monga nas calçadas da grande cidade- não há truques).
Umas olham sorridentes: sou algum personagem, assistente de palco de programa infantil (roupas coloridas e uma peruca engraçada).
.
E meu cabelo cresce a cada passo.
Ele não cresce, ele incha a cada passo. Sobe mais. Eles olham mais.
E eu rio deles. De mim. De poder fazê-los rir. Sinto este poder.
Este e outros. O poder da autonomia. Da coragem e da liberdade.
Da transgressão.
De ser superior a algumas cabeças. De meu cabelo me fazer maior que eles.

Me diverte e me orgulha ser oportunidade para acreditarem na ilimitação do comportamento imprevisível.
Eu sou seu monstro.
Surgi calma, carregando um cabelo, que sobe a cada dois segundos.
Não sou uma louca de rua. Não sou mendigo. Não sou artista. Não sou um personagem. Não, não sou Monga, nem trabalho com a Vovó Mafalda. Também não sou hippie. Desculpe, não tenho licença poética para andar entre vocês tão à vontade.
. Sou uma menina que trabalha, descendente de África, que me deu cabelo duro.
Que o solta. Um cabelo que o vento não assanha, que a água não despenteia.
Ele não é penteável. Ele é independente de mim, de pentes, escovas, cordões ou cremes. Ele é invejável, não? Você gostaria de andar com ele?
Não com ele, mas com o seu, natural. Assumi-lo. Liso, em cachos, brancos, tingidos ou alisados. Como você o quer. Livre de conselhos e imagens de belas atrizes.
Você não é belas atrizes. Você é bela. Com seu cabelo.
. Amo as pessoas me olhando. Elas me divertem. Como são estranhas.
Como me estudam. Como me compreendem.
Admiram a dança dos fios com o vento.
Admiram eu não passar a mão para colocá-los no lugar. Mas é que eles não têm lugar.
E tento segui-lo. Tento ser ele meu guia. Transformar-me neste incontável número de fios libertos.

Eu ando por aí, coroada com esse meu cabelo “ruim” feliz, sendo invejada.
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* Li este poema na internet e fiquei fã desta poeta, Maramarina, de Aracaju. Mostrei-o logo para a Negra Íris, vocalista de um grupo de rap que curto pra caramba e que tem colado nos eventos da Blackitude, o RBF – Rapaziada da Baixa Fria. Desde então, nas apresentações dos poetas da Blackitude, Íris tem declamado estas lindas palavras... eu... esqueço tudo e fico lá só observando como nós somos lindos com nossos belos cabelos bons.

Obrigado Maramarina pelo lindo poema sobre nós!
Salve Negra Íris, pela bela presença e voz!

Também Na Gramática da Ira, atacamos com uma doçura demolidora!!

Tô com vocês, irmãs!! (Nelson Maca)

3 comentários:

una disse...

Amei. Desde a primeira vez que li e me delicio cada vez que releio. Incansávelmente. Dá saudade de reler; inspira!

Beijo a todos!!
e um especial a Preta Má!

Luciana Matias disse...

Salve companheiro Maca!

Conheci este poema o ano passado na performance da Negra Ìris,No União dos Man@s 2007.De lá p/k corri horrores atrás desta lindeza de poema e ei-lo aqui,fantástico.
Fantástico e oportuno,pois vem de encontro com a rima do Cabelo da Desgraça e com o fato ocorrido com "meu Companheiro" e seu companheiro ASPRI, em um 1º dia de emprego.
È companheiro,a cultura se expressa em nosso corpo e a mesma escolhe algumas partes dele para ser mais contundente,o cabelo é uma delas,quiçá, a mais contundente.
Leio o poema Cabeleira e como trilha sonora,Cabelo da Desgraça,relembro uma infância onde não me permitiram gostar da minha cabeleira,lembro da dor e da quentura como se fossem chamas,talvez,para queimar mesmo qualquer resquício da minha ancestralidade africana.
Hoje, a cabeça não dói mais,me tornei sem dúvida uma mulher negra,a dor é outra,é consciente,essa dói!
Dói por ver meninos e meninas negarem sua pele preta,sua Cabeleira,pq não lhes dão a opção de conhecerem sua história.
Dói por que o cabelo é passaporte para o desemprego...
Mas fortalece também,a dor fortalece,pois é este cabelo q faz os contrários a ele se movimentarem na covardia q lhes é própria de tentarem nos exterminar,pobres mortais...
Estamos fortes e nas nossas tranças do conhecimento,acabamos com qualquer boi lambeu,escovas progressivas com sabor de um péssimo chocolate(risos)
Estamos fortes,estranhamente fortes,naturalmente fortes,transgressoramente fortes...
Obrigada pela oportunidade,é mais uma conexão Bahia- Minas Gerais(risos).
Axé!
Luciana Matias

Anônimo disse...

fascinada com essa pagina