sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Não Sorria: Você está na Bahia do Racismo!

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SALVADOR: UMA CENA COTIDIANA


Taxista simula assalto e passageiros são agredidos por policiais
Sucessão de equívocos ocorreu após show no Pelourinho


Por: André Luís Santana – jornalista (DRT BA 2226) 71. 9106-1512

Um taxista, motivado pelo racismo, simula uma tentativa de assalto, acusando os passageiros - três jovens negros - e despertando a atenção de uma viatura da Polícia Civil de onde saem três policiais armados que, antes de qualquer esclarecimento, xingam e agridem os jovens, deixando, inclusive, um deles nú em via pública. Na delegacia para onde foram levados, mais uma sucessão de humilhações e desrespeitos. O que era para ser um fim de festa tranqüilo para os amigos, Ítala Correia, Saturnino Silva e Henrique dos Santos, virou um pesadelo que tem custado sair da lembrança dos jovens.

Na madrugada de sábado para domingo, 26, após assistirem ao show da Banda Lampirônicos, no Centro Histórico de Salvador, os jovens, todos moradores do bairro da Boca do Rio, resolveram pegar um táxi, para garantir mais conforto e segurança na volta para casa. Ledo engano. Entraram no Corsa JRA 1505, do taxista César Augusto da Silva Purificação Santos, de 49 anos (Alvará A-1753), no Terreiro de Jesus. Próximo dali, após passar pelo Campo da Pólvora, o motorista iniciou uma crise de pânico, gritando e demonstrando medo.

A princípio, os jovens tentaram acalmar o taxista, pois pensaram se tratar de algum repentino problema de saúde. No início da Ladeira da Fonte Nova, o motorista, ao avistar uma viatura – um Eco Sport da Delegacia do Adolescente Infrator / DAI, parou o taxi e saiu gritando que estava sendo assaltado. "Até então, ainda não entendíamos o que estava ocorrendo. Primeiro pensamos que ele passava mal, estava tendo uma crise de epilepsia. Depois pensamos que o carro estava sendo assaltado por alguém que estava do lado de fora. Foi uma tensão terrível", explica com tristeza a produtora cultural Ítala Correia, de 21 anos.

Quando os jovens conseguiram sair do carro, já que o motorista havia travado todas as portas, já encontraram três policiais com armas em punho apontadas para eles. "A partir daí foi muito xingamento, humilhação. Revistaram minha amiga de forma abusiva, levantando a roupa dela e xingando-a de puta, vagabunda e outros palavrões. Tive que ficar nú em plena rua", relembra o garçom, Saturnino Silva, de 30 anos.

Na confusão para sair do carro, Ítala caiu e bateu o queixo no chão. Mesmo sangrando, a jovem continuou a ser agredida verbalmente pelos policiais, atendendo ao desespero do taxista que continuava afirmando que os jovens o assaltariam. A jovem foi atendida no 5º Centro de Saúde, no Vale dos Barris, e levou cinco pontos no queixo, além de apresentar manchas roxas pelo corpo."Como eu já sai do carro correndo, pois achava que nós é que seríamos assaltados, os policias apontaram a arma para mim e chegaram a engatilhar. Tive que me jogar no chão. Por pouco não fui morto", conta o jogador de basquete Henrique dos Santos, de 28 anos, que havia participado, na manhã de sábado, do campeonato de Basquete de Rua, promovido pela Central Única das Favelas – CUFA. Policiais da 1º Delegacia, no Complexo dos Barris, alegaram que a roupa do esportista (camisa e bermuda largas), foram as razões para despertar o medo no taxista.

"Também, olhem como vocês estão vestidos, olhem para o cabelo de vocês, era o que dizia um dos policiais que nos atenderam na Delegacia, justificando a ação do taxista", conta Henrique.

Os jovens acreditam que a ação policial, ainda na Ladeira da Fonte Nova, só não foi pior porque o tio de Ítala, o comerciante do Pelourinho, Wilson Santos, também morador da Boca do Rio, conduzia seu automóvel, junto com a esposa, e acompanhava o táxi que levava os jovens. Ao ver a movimentação policial, Wilson soltou do carro e se colocou na frente dos agentes, entre as armas e os jovens, tentando convencer os policiais do equívoco que ocorria.

No Boletim de Ocorrência, assinado pelo agente Júlio César dos Santos Batista, está descrita a calúnia e simulação de assalto, com a alegação do taxista de que "os jovens fizeram movimentos bruscos dentro do carro". Os amigos explicam que o próprio motorista perguntou se havia alguma porta aberta e todos foram verificar, respondendo negativamente. Depois disso, o condutor travou todas as portas e iniciou o desespero repentino.

Os três jovens já deram queixas em todas as instâncias que tiveram acesso: como o Disk Racismo, a Gerência de Táxi da Prefeitura de Salvador – GETAXI e o Procon, ainda restando ir à Corregedoria da Polícia Militar e ao Ministério Público. Eles esperam que a ação preconceituosa do taxista e a abordagem abusiva dos policiais não fiquem impunes. "Somos jovens de bem, trabalhamos, não usávamos drogas, nem estávamos cometendo nenhum delito.

Toda a suspeita e agressão foram motivadas pela nossa cor, nossos cabelos. É um absurdo que ainda tenhamos que conviver com atitudes como essa", revoltasse Ítala. "Poderíamos estar todos mortos. Aí seria alegado que estávamos envolvidos com o tráfico de drogas. Já imagino as manchetes: Tentativa de assalto termina com morte de três assaltantes", assustasse Saturnino, referindo-se às práticas constantes no noticiário baiano, quando se trata do assassinado de jovens negros da periferia.

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Conheço todo mundo aí
...
inclusive o tio de Ítala, que vinha no carro de trás, e André, jornalista que escreveu a matéra.

Escrevo com lágrimas de Horror e de Raiva!

Ítala é um doce de menina que temos visto crescer sempre presente na cultura hip hop de Salvador, inclusive com grupo de rap e produção de eventos.

Além disso, acostumei-me a vê-la nos corredores da Universidade Católica de Salvador, onde eu ensino Literatura Brasileira, e ela frequentava o curso de Comunicação-Publicidade.

Durante a produção de uma exposição de graffiti na Galeria da Caixa Cultural de Salvador, trabalhamos, também, na casa dela, com suas duas irmãs. E a mãe acompanhando tudo com interesse e respeito pelas filhas e por nós, da Blackitude. Com almoço pronto para a partilha e com carinho para todos!

Lá, sim, estávamos em família!
Podíamos sorrir sem medo de revide na Bahia Preta!
Sem medo dos sucessivos "enganos" da polícia!

É isso... não vou me alongar...
Julguem aí, vocês, parceiros...

De minha parte, todos já sabem:
estou, permanentemente, em
Guerra Preta! Estratégia Quilombol!

Nelson Maca -
Com Vergonha dessa Bahia tão Familiar!!


Só o Black Power Movimento nos Preserva!


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5 comentários:

:: Soul Sista :: disse...

Tanto horror que se estende desde a triste Bahia de Gregório, feliz para nós, já que, para esse poeta da elite decadente da época, a tristeza da Bahia estava justamente na nossa presença preta. Diante de tanto horror perante aos céus e terra, só a quilombologia, uma ideologia quilombola nos levará a condições melhores do que as de hoje.

luciana disse...

Estou um misto de alegria e tristeza agora!
Alegre pela vitoria de Obama, com esperança de reais mudanças; Que diria que um pais tão conservador e racista como EUA, elegeria um negro para presidência...
Tristeza pela atitude estúpida e cruel com que este taxista, e policiais agiram com estes jovens negr@s.
Lá nos EUA o problema racial é mais fácil se assim posso dizer, de se encarar pois lá o racismo é declarado de verdade; diferente daqui que é esta tão cantada e declarada democracia racial. Aqui o problema é que não se é declarado o racismo, ele é disfarçado. Força e resistência pra estes jovens, pra el@s não desistirem de lutar e seguirem em frente pela tão sonhada justiça.
Eu tenho um sonho. O sonho de ver meus filhos julgados
por sua personalidade, não pela cor de sua pele.
Martin Luther King

:: Soul Sista :: disse...

Retribuo a visita, Maca. Não precisa se explicar ao fazer críticas. Conheço o seu trabalho e sei que você sempre fala "com respeito". No ano passado, assisti empolgada e emocionada às palestras do Tributo a James Brown. Desde lá, admiro seu trabalho artivista e quilmbola. Soulbroda, para mim, nem qualquer biografia nem lápide de mármore carrara enobrecerá Pelé. Agora, é incontestável o prestígio mítico que tem pelo Brasil e pelo mundo. Infelizmente, a meu ver, mas tem. O livro foi escrito por uma grande amiga carioca, por isso também postei o anúncio do lançamento.
Hoje, uma dia depois de nos certificarmos de um preto no poder da (ainda) potência econômica do mundo, sinto-me em festa, não por esperar mudanças políticas que beneficiem os amefricanos (do sul), mas porque ele e sua família preta ocupam um papel carregado de força transformadora, além de guardarem na pele memórias de migrações forçadas, violências e muita resistência.
YES, we can!!(tb do lado de cá, do nosso jeito) Continuemos nossas estratégias de quilombos então!!!!

Lila disse...

Não entendi o porque que o tio da Ítala não deu carona a ela e seus amigos na volta para casa morando no mesmo bairro que eles. Outro detalhe importante é que se ele estava acompanhando o táxi como não percebeu de imediato o que estava acontecendo com a sobrinha e seus amigos, deixando-os sofrer de xingamentos e humilhações?
Esses são alguns questionamentos que para mim não ficaram claros.

Stefano disse...

historia pra boi dormir.... racismo + comum na Bahia é de negro x negro