sábado, 5 de abril de 2008

ENTREVISTA / Escritor Rodrigo Ciríaco

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Rodrigo Ciríaco
é daquele jeito, nêgo: fala de mansinho, sorriso sempre no rosto. Com cara de bandido bom, vai, simplesmente, bombardeando nossas convicções, nos colocando no paredão sócio-educacional desta vida sem dó nem piedade. Se duvida, nêga, leia a entrevista, o conto, o poema postados abaixo e depois me diga. Adivinhe aonde conheci o cara pessoalmente? Em pleno Sarau da Cooperifa, e logo no dia da entrega do II Prêmio do coletivo. Cruz Credo! Muito louco tudo lá!! Nos apresentamos e, apesar da rapidez que exigia o fantástico momento festivo periférico, lá mesmo percebi que ele era forte. Uma daquelas possibilidades de amizade que a gente sabe que não pode deixar escapar. Questão de vivência, clarividência e malandragem, tudo junto. Nos encontramos novamente no lançamento do livro “Suburbano Convicto: pelas periferias do Brasil” organizado pelo Maquinista-Condutor Alessandro Buzo. Antes, durante e depois desses rolés todos, tenho acompanhado o Rodrigo nos Blogs de outros parceiros além, é claro, de acessar diariamente o Blog Efeito-Colateral – do próprio. Então, vamo que vamo... siga aí as idéias do Irmão!

Gramática da Ira (GI) - E aí, Rodrigo Gente Boa Ciríaco, como vão as coisas? Como você gostaria de se apresentar aos leitores do Gramática da Ira?

Rodrigo Ciríaco (RC) - Salve Nelson Maca, leitoras e leitores do blog. Para mim não é só uma satisfação muito grande aparecer por aqui, mas principalmente uma honra. Meu nome é Rodrigo Ciríaco, professor de História na rede pública estadual de Sampa, 26 anos, integrante da Cooperifa – Cooperativa Cultural da Periferia. Sou um cara chato, inconformado com muitas coisas que as pessoas acham normais. Basicamente é isso.

GI - Como você vê a cena Cultural periférica de São Paulo? Por onde você circula normalmente? Por quê?

RC- Acho que a cena Cultural da Periferia em Sampa está em expansão. Não que antes as coisas não aconteciam, pelo contrário. A Cultura da Periferia – Cultura Popular – ferve não é de hoje. Mas, o que acho que está em expansão é a divulgação, o (re)conhecimento de quem está fora destas áreas. E claro, uma valorização da Cultura Periférica.
São Paulo é muito grande. Alguns bairros são verdadeiras cidades dentro das cidades. Eu normalmente circulo mais entre as regiões Leste (onde trabalho – Escola) e Sul (Cooperifa). Mas tenho vários parceiros em outras regiões da cidade, que eu não estou presente, somando, com a frequência que eu gostaria, mas que lembro sempre: Sacola em Suzano, Buzo no Itaim, Dinha e Maloca no Bristol, Michel em Pirituba, Canto e Fanti em Pilões, Mafê e Binho na Sul também, e por aí vai...
Periferia é o meu lugar. Gosto das pessoas, elas me respeitam pelo o que eu sou. E a recíproca é verdadeira.

GI - Fale um pouco de seu blog. Qual a principal função do Efeito-Colateral além de pegar no pé do sistema educacional da Paulicéia Desalmada?

RC- “Efeito Colateral que o teu sistema fez...” O final da letra do Racionais, Capítulo IV, Versículo 3 é o que deu o nome ao Blog. Efeito Colateral que o teu sistema fez. É uma resposta ao Sistema. Não gosto de dizer que ele tem uma função, a não se a de eu extravasar, desabafar, para não enlouquecer – literalmente. Mas o blog segue uma linha, que eu desenvolvi no caminho, nada pensado, de falar sobre Educação, Cultura, Literatura, Política e divulgar as idéias que eu cultivo, acredito, e quem soma – ou não – comigo.

GI - Como é o cotidiano de uma escola pública aí, no “Sul Maravilha”, é verdade que sai iogurte dos bebedouros e tem pé de “pão de ló” entre roseirais no pátio?

RC- Olha, se fôssemos falar sobre alguns Colégios Particulares, diria que é verdade. Eles provocam tanto a gente, são tão sem-noção da realidade do país em que vivem que é capaz de alguém ter essa idéia sim.
Mas na Escola Pública a realidade é diferente. Principalmente as do Estado de São Paulo, cujo Governo do PSDB está há 14(!) anos, tem casos bem complicados. Vou falar da minha Escola: infiltrações, goteiras, paredes emboloradas; ausência de quadras para a prática de esporte, falta de sala de aula, sala de vídeo, laboratórios, falta de computador, falta de cadeira, carteira. Tem dias que falta até giz. Além da falta de Direção, que na maioria das escolas são cargos Figurativos e da falta de professores, educadores. Tanto no sentido físico – eles faltam muito – quanto na questão de falta de Ética, respeito aos alunos, etecetera. Eu sei que isto é consequência da desvalorização do Profissional da Educação, a começar pelo salário mas, os professores também são culpados. Não somos Unidos. A solução é sempre individual. E ruim. “Ah, eu arrumo outro emprego.” “Ah, eu troco de escola.” “Ah, se acha que dá tempo de preparar a aula”. Ou seja, o boicote é sempre ao aluno. E quem a gente deveria atingir, quem a gente deveria se unir para lutar pela Educação, por nossos direitos, vira o jogo e devolve um tiro de argumentos na nossa testa, com a nossa munição: tá vendo, a escola está assim por causa dos professores.
É muito difícil trabalhar na Escola Pública. Mas eu, enquanto profissional, escolhi este ambiente para ser o meu lugar de trabalho. E Educação, para mim, tem que ser Pública, Gratuita e de Qualidade. A não ser que me tirem, eu não largo a rede Pública de Ensino.
Muitas vezes conhecidos, amigos, acham que estou no ensino público por falta de opção. Por conta das dificuldades acima citadas, baixos salários. Vêm me oferecer emprego em colégios particulares. Eu digo: Não. Algumas não entendem, ficam ofendidas: - Como você pode negar? Aí eu explico: Educação Pública não é falta de opção, pelo contrário: é uma Opção Pedagógica, Política e Ideológica. Além do mais, apesar dos problemas, a Escola Pública tem uma coisa que todas as outras não tem: a diversidade, a pluralidade. De opiniões, cores, religião, condição social. Os alunos. Os filhos e filhas dos trabalhadores da periferia, das classes populares. Eles são a MELHOR coisa que há na Escola Pública. É por eles que eu fico.

GI - Em que consiste o seu projeto de levar a literatura periférica para sua escola além da possibilidade de arranjar encrenca com os colegas e com a direção e do perigo de incentivar mais a literatura que os professores de...?

RC- O projeto Literatura (é) Possível na verdade não é restrito à literatura periférica. A Literatura Periférica é o carro-chefe, tem uma força, expressão, muito grande dentro do projeto, mas ele é um projeto Literário. Aberto a toda manifestação artística, inclusive não só literária. Este ano eu vou trabalhar, junto com os textos, poemas, algumas músicas, peças de teatro, técnicas teatrais – para ajudá-los nos momentos do Sarau, entre outras coisas. Mas, voltando: O Literatura (é) Possível consiste em ser um projeto de incentivo à Leitura e a Produção Escrita dos alunos e alunas, dentro da escola. Eu não quero tomar o lugar do professor de português. Eu não tenho qualificação para isso. Mas eu sou um apaixonado pela Literatura. E eu quero que os alunos se aproximem da Literatura de uma maneira prazerosa. Menos traumática. Porque Literatura para mim é Arte. Ponto. E para o professor de português, muitas vezes, é um “corpo” - objeto -, a ser dissecado, estudado. E ele muitas vezes nem se dá conta de que aquele “corpo” está vivo. O texto literário tem vida. Ele não pode ser só uma pedida para provas e análises gramaticais. Há a necessidade de saboreá-lo. Então, o projeto consiste nisso: saborear a literatura. Semanalmente nós armamos o banquete e nos deliciamos. Uma vez por mês, paramos a aula e fazemos um Sarau, dentro da sala, nos moldes do Sarau da Cooperifa: apresentação, silêncio, aplausos. Nada de vaias. E, uma vez por mês, um escritor, poeta é convidado a comparecer na escola, no front, e se embater com os meus soldados: os alunos.

GI - Que escritores têm colado com você? O cachê deles é quantos mil reais? De onde vem tanto dinheiro para o projeto?

RC- Sérgio Vaz, Marcelino Freire, Dinha, Allan da Rosa, Sacolinha são aqueles que já vieram e voltarão, ainda neste ano. Carlos Galdino, Alessandro Buzo, Eliane Brum, Akins Kinte, Elizandra são outros que somarão ao time. E há muita gente, em off, que comparecerá ao projeto este ano. Você eu já posso anunciar que será um deles (risos).
Tenho a felicidade de ser amigo, conhecido, de todos estes escritores. Todos não querem cobrar nada para ir a escola. Mas eu faço questão de bancar. Por dois motivos: primeiro, acho que temos que valorizar o trabalho do poeta, do escritor. Valorizar, não profissionalizar. Porque para mim a produção do texto é um Trabalho, árduo, cansativo e muito sério. E acho que é justo as pessoas receberem, serem valorizadas pelo seu trabalho. O outro motivo é que, sempre que o escritor vai, eu aprecio que ele deixe alguns livros para a Biblioteca da Escola e para os alunos. Então, seria demais, além dele ir de graça, levar livros, de graça. Não acho justo. E eu quero Justiça. Social, Educacional, Econômica e Literária. Então, apesar das dificuldades, temos que ser exemplo.
O “cachê” equivale a compra de três, quatro livros. Dá em torno de R$ 60,00, normalmente. E o dinheiro sai do meu bolso.
Aliás, gosto de deixar isso bem claro. Não para me vangloriar, mas para dar a “César o que é de César”. O Governo do Estado de São Paulo não colabora em nada. A Secretaria de Educação, Diretoria de Ensino, que tem conhecimento do projeto, não colabora em nada. A Direção da Escola não colabora em nada, a não ser em ceder o espaço. Mas aí o faz porque há interesse. O projeto sai do meu bolso. E poderia estar fazendo-o em outro lugar, estou em contato com a Associação dos Moradores do bairro mas, o faço na escola porque ele está dentro de uma visão que eu tenho da Escola, como ponto de cultura: oferecendo além das atividades curriculares obrigatórias, outras atividades “livres”. A pivetada da periferia precisa ter opções de lazer, cultura, educação não-formal. E este espaço tem que ser, também, o da Escola.
Ah, o dinheiro sai do meu salário. E sairá do meu próximo livro.

GI - Quando sai seu livro? Vai ser como: conto, poesia, crônica? Ou vai, primeiro, lançar “Confesso que vivi: diário de Recife”?

RC- Acredito que o meu livro, o primeiro “mesmo” - já participei de algumas Antologias -, sairá em Junho, mais provável Julho. Será um livro de contos, e a temática central será... a Escola.
“Confesso que Vivi: Diário de Recife” vai levar mais um tempo. Na verdade o nome dele será “Confesso que Vivi: Diário de Recife, Salvador, João Pessoa, Florianópolis, Porto Alegre, Manaus,...” e por aí vai. Porque eu sou um brasileiro, apaixonado pelo meu país, e quero conhecer o meu povo, onde quer que ele esteja.

GI - Que relação você estabelece entre suas narrativas e seu cotidiano em sala de aula? É tudo verdade ou você se permite mentir para o bem de seus textos?

RC- É tudo verdade. Mentira. É tudo verdade e é imaginação, criação. Não posso dizer que os personagens dos meus textos são reais, não são. Às vezes eu leio alguns contos em sala e é curioso observar a reação dos alunos. Eles não identificam um, ou outra pessoa, mas vários deles dizem: “Nossa, sou eu. Não, sou eu. Sou, eu!. Não, não, sou eu.” Ou seja, a personagem não é real, mas as situações são. As coisas que eu conto acontecem, com muitos deles.
Aliás, no livro, gostaria que as pessoas ao invés de buscar identificar quem são os alunos, se eles são reais, procurassem identificar quem são os responsáveis por colocá-los naquele tipo de situação, de vida. Isso seria a riqueza e contribuição maior desta minha obra que, espero, não seja apenas literária: descobrir não só quem sofre, mas quem nos faz sofrer. E rebatê-los. Com força, veemência. E Justiça.

GI - Por que você escreveu um poema tão “simpático” sobre as ONGS? Quase eu choro. Como a crítica foi recebida pelos “ongueiros” que infestam seus caminhos?

RC- Conheço o universo das Ong's. Trabalhei durante três anos como voluntário em uma delas, a Revista Ocas” e fui funcionário durante sete meses de outra, a Fundação Projeto Travessia. Ambos trabalham com a população de rua, aqui em Sampa. A primeira com adultos, a segunda com crianças e adolescentes.
Em relação à primeira, nenhum problema. É uma ong “pobre”. Então, quem está lá está por que acredita: na justiça, na transformação. Segura a ong nos dentes, na raça.
O problema está nas ongs “ricas”, que tem bastante dinheiro, seja da iniciativa privada ou dos cofres públicos. E isto não se restringe apenas ao Travessia. As Ongs são verdadeiras Indústrias da miséria. Uma adequação do Sistema Capitalista, que concentra a Renda e exclui, e se apropria desta Exclusão, transformando-a em Mercadoria. Uma coisa escrota, repulsiva e que dá raiva só de pensar. Muitas Ongs, diria a maioria, não são Responsabilidade Social. São Empresas, seguem a lógica empresarial, e muitas vezes colocam o LUCRO, a garantia do recebimento de recursos, ACIMA da vida das pessoas a quem elas dizem ajudar, proteger. São Lucro Social.
Aliás, nos quase quatro anos que estive ligado às Ongs, descobri que elas não resolvem nada. Ajuda, minimiza um pouco, mas não resolve. Não será transformação. É tampar o sol com a peneira, cuidar da hemorragia com um curativo. A única solução que eu vi plausível, que eu confio e acredito é muito simples. E difícil. Distribuição de Renda. Ponto.
Sobre o poema, poucos comentaram. Muitas pessoas agem com indiferença à Literatura, em geral, o que é um erro. Na História, podemos observar que muitos Movimentos Culturais, Movimentos das Idéias, antecederam as transformações. Então, estou “suave”. A (R)Evolução não será televisionada.

GI - Fica aí o espaço, para suas considerações finais.

RC- Muito se fala de Educação hoje em dia. Há um consenso que, um dos pilares, caminhos para a transformação deste nosso país chamado Brasil é a Educação. Concordo. Mas tem muita gente dizendo bobagem, falando da boca pra fora. Ou querendo lucrar por cima.
Eu digo: não acredite em tudo o que você lê, vê. Não acredite em mim. Pesquise, se informe. Vá saber por conta própria. E se quer fazer alguma coisa pela Educação, realmente, MATRICULE O SEU FILHO NUMA ESCOLA PÚBLICA. Garanta que ele, e todas as crianças e adolescentes tenham uma boa qualidade de ensino. Participe dos Conselhos de Escola, Conselhos de Classe, Associação de Pais e Mestres (APM). Incentive a formação de Grêmios. Não será o Governo, Secretarias, Diretores ou mesmo os professores que transformaram a Escola. A Comunidade Escolar precisa estar envolvida, ativa, participante. Se tivessem mais gente verdadeiramente preocupada com a escola, ela não estaria do jeito que está.
Matricule o seu filho numa Escola Pública. Acompanhe a sua vida escolar. É um slogan, mas Cidadania é um Direito. EDUCAÇÃO NÃO É MERCADORIA!
Queria agradecer também o convite, o espaço. A entrevista ficou longa, mas tentei fazê-la com seriedade e clareza, em respeito à sua pessoa, Maca, que admiro e aos leitores e leitoras do seu blog. E convido os amigos e amigas a acessar o meu blog, discutir, trocar umas idéias: http://www.efeito-colateral.blogspot.com/
Aquele abraço,
Rodrigo Ciríaco

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Então, não vá se esquecer, hein!, é


www.efeito-colateral.blogspot.com

Fotos: todas do blog Efeito-Colateral de Rodrigo Ciríaco
Na primeira: ele mesmo.
Na sexta: Marcelino Freire

Valeu, Rodrigo,
Nelson Maca - Blackitude.BA


4 comentários:

rodrigo ciríaco disse...

Maca, valeu pelas palavras.
Me senti lisonjeado, homenageado. Obrigado. Muito obrigado.
Grande Abraço,

Rodrigo

Nelson Maca disse...

Que isso, rapaz, você é o que é!

Nelson Maca

Rogério Pixote disse...

É o cara!

Nelson Maca disse...

Olha só quem comentou a entrevista do Rodrigo Ciríaco:

...Muito Consciente, Informativa e Inteligente a entrevista ki vc fez com o Ciríaco !!!!

Eu tbm tenho o prazer de conhecer pessoalmente esse mano.

1 Lemon-Abração aê, meu brother.
Tamu loooonge + tamujuntuzzz !!!

(Walter Limonada).