quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Morcego - Um conto do livro RGP

.para o B.Boy Ananias - Parceiro Nato
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Quando Neguinho teve acrescentado à sua galeria de apelidos o de Morcego, não foi diferente de quando ele ganhou o Pelezinho sem que abandonassem o caseiro Nenê. Ou seja, ele sempre se faz múltiplo também na coleção de vulgos. Mas isso só poderia ser assim mesmo, pois enquanto se alastra a notícia de seu último feito, ele já anda preparando alguma novidade. E assim corre e se diversifica sua fama. Não nasceu para passar despercebido. Mas também não se cristaliza em excesso. Nesse dia, Neguinho, bom de bola, como quase cracão do Vitória que seria se tivesse passado naquela peneira de cartas marcadas, do nada, saiu voado de um beco desses que margeiam a avenida suburbana. Jogou o corpo pra cá, retorceu-se pra lá meio que derrapando sobre as imensas havaianas sujas e maltratadas, saltou magistralmente como que voando sobre aquele carrinho de mão carregado de bananas, laranjas, maçãs, mangas, abacaxis, goiabas, umbus. Deu apenas um leve toque de pé no asfalto antes de, literalmente, flutuar por alguns segundos e colar as solas dos pés ao mesmo tempo que retorcia os dedos sobre o pára-choque do Rio Sena, coletivo de inomináveis aventuras. Sem perder a concentração, tirou as sandálias dos pés cascudos e vestiu-as nas mãos, tudo no maior equilíbrio. Já sentia o vento da aventura no rosto e começava a entrar no seu delírio único de nova revelação do surf rodoviário. Foi então que se deu a freada brusca, totalmente fora de hora e lugar. Claro que, mesmo intuitivamente, ele estranhou a parada de supetão do buzu. Ali não havia ponto, lombada, sinaleira, vala, cruzamento, módulo.... Antes mesmo de virar o rosto para ver do que se tratava, sentiu o estampido no ouvido e, quando deu por si, estava estatelado no meio da rua. Sua orelha direita pulsava como um coração em colapso, e sua audição prolongava as contrações do estampido que lhe ensurdecia. Ali no chão, já rodeado de curiosos ao longe, recuperava sua inocência perdida na fama. 14 anos de idade, magrelo e comprido, uma vareta de cutucar estrelas. Maltrapilho, trazia estampado na pele e na mente as marcas sujas da Bahia preta, pobre e perversa.
- Levanta, vagabundo!!
Só então, percebeu, já pelos coturnos e a calça cáqui que subia de dentro das botas, que se tratava de um meganha. Levantou cabisbaixo e, arcando-se sobre si mesmo, mãos na barriga, finalmente, soltou seu primeiro gemido de dor. Baixinho como convém diante de um homem da lei.
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- Tá doendo, seu morceguinho filho da puta?
Como que sabendo que, de um jeito ou outro, prosseguiria o corretivo, apenas curvou-se um pouco mais, protegendo o fígado, o pâncreas, o estômago, como se acostumara a fazer em momentos de encontro com os pacificadores da área.
- Olha pra mim, seu sacana abestalhado!
Sem mover o abdômen, mantendo ambas as mãos na barriga, apenas levantou o olhar, finalmente, fitando a cara preta do policial que lhe enquadrara. Morcego, um Davi descalço em frente àquele Golias fardado.
- Se eu te pegar, mais uma vez, bancando o macaco agarrado num carro desses, você já sabe, né, seu viado. Você acha que é morcego, mas vai acabar virando é merda, que é o que você é, seu porqueira fudido. Sacizeiro do caralho! Agora se saia, e não olhe pra trás. Vai, seu preto otário!...
O menino saiu quieto, ainda curvado, foi andando passos miúdos na direção oposta do soldado. À sua volta, reinava o mais absoluto silêncio. Desde que reconheceram a pessoa do Neguinho no morcego derrubado pelo marreco, ninguém esboçara a menor reação. Muitos eram os motivos para o silêncio. Conhecimento antigo daquele pivete criado naquelas vielas. Admiração. Desprezo. Raiva. Pena. Receio. Dó e até Ciúme.
Missão cumprida, o golias cáqui desviou seu olhar de desprezo daquele neguinho, ciente da missão cumprida. É de menino que se torce o pepino; lembrou-se da voz sublime da velha mãe querida. Sabia que impôs o respeito ao pivete, e, indiretamente, a todos os vagabundos presentes, e um recado aos ausentes. Sabia que fizera jus à sua fama já antiga. Deu um sorriso contido para si mesmo e dirigiu-se ao seu carro ali estacionado pelo puro acaso de comprar uma carteira de cigarros depois de uma noitada de plantão relativamente tranqüila, apesar da má fama de sua jurisdição e da eterna tensão, sabedor dos que esperam na sede seu mínimo vacilo. Entrou no carro, empurrou seu Djavan pra dentro do toca cd e deu partida na barca. Antes de aliviar o pé da embreagem, já pensando na nenê acordada em casa, tateou o painel em busca do isqueiro para acender seu Carlton.
Todos viram sem muita surpresa quando Neguinho desencurvou-se, ganhando a estatura de um enorme problema. Como nas rodas de angola, mandingueiro batizado Ciclone por seu velho mestre, girou ligeiro, dando meia-volta no corpo delgado, ao tempo que, finalmente, tirou, muito rapidamente, as mãos da dobra do estômago, trazendo, canhoto, seu inseparável ferro, que brilhou naquela manhã antes de atingir duas vezes a nuca de seu algoz com a precisão de um mestre. Ali mesmo ele ficou, sentado ao volante em silêncio profundo.

“Deus salve Soweto...” No cd, Djavan seguia inabalável.
Depois, menino de hábitos tranqüilos, Morcego, antes de sair, pacientemente, catou o outro pé de sua sandália e prendeu a tira que havia soltado. Agora, voltava a lhe coçar a mente o desejo de pongar no primeiro buzu, grudando suas garras longas, sujas e negras em sua lata já quente pelo calor da manhã. Queria sentir o vento na narina larga e aquele arrepio no corpo enquanto sonha transferir os negócios para São Paulo. Lá, finalmente, grudaria como morcego nos trens da Luz que lhe falou seu quase lembrado pai na nunca esquecida promessa de volta naquela remota dolorosa despedida.

Nelson Maca

4 comentários:

blequimobiu disse...

Muito loko!

Bem detalhista!

Abs!




Ah que dia é minha aula?

Marcus Gusmão disse...

Muito bom, cara. Gostei muito e estou recomendando a leitura lá no meu Licuri.

Parabésn.
um abraço.

Bernardo Guimarães disse...

Li seu conto por recomendação de Marcus Gusmão, do Licuri e fiquei de queixo. Bárbaro, cortante, muito bom. Quero Mais!

Nilson disse...

Oi, Nélson. É Nílson, "marido de Emília". Cheguei via Licuri. Muito bom o texto. Forte. Vou voltar outras vezes. Abraço.