segunda-feira, 15 de junho de 2009

Literatura Divergente - Tese 1

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Manifesto Íntimo e Relativo do Escritor Divergente


O Escritor Divergente está organicamente envolvido com seu projeto literário.

Sua obra não deve estabelecer limites nítidos entre o fim de sua vida e as linhas de seu texto. Porém todas as marcas que interressam estão no seu discurso. Suas palavras aos olhos e/ou ouvidos do leitor são o início, o fim e o meio de sua arte-vida!

Não há objetivos antes da linguagem, embora haja verdades que interessam! Sua razão de obra é sempre o depois, o daqui pra frente. Dentro e fora do texto, sua meta maior é vida na sua abrangência contraditória!

O Escritor Divergente, entre nós, aqui, sabe-se pertencente de fato a uma cena que diverge das hegemonias históricas da literatura ocidental oficializada.

A voz e/ou letra impressa do Escritor Divergente media, com a harmonia interna de sua a arte, a sua relação de dissidência expressiva com o caos da realidade que o cerca em publicações pontuais nas orelhas do livro trágico da vida que lhe cabe.

Essa é a sina do Escritor Divergente!

Seu caminho se entrecruza com os caminhos de outros diferentes nas experiências de vida, mas iguais na urgência do texto conscientemente divergente. Logo, da natureza destas relações depende o diálogo, o alcance e a inteireza da empreitada de cada Escritor Divergente que, logicamente, nunca deixará de ser e ter sua própria história individual e intransferível.

Em muitos casos, no entanto, essa consciência ainda é o objetivo principal a ser percebido, artigo buscado e, enfim, alvo alcançado.

Muitos Escritores Divergentes - por natureza - ainda não percebem e/ou sassumem esse senso de pertencimento; o que, quando dominado, pode representar avanços inimagináveis para sua escrita.

Essas relações de percurso são vitais para a trajetória do Escritor Divergente.

Então, o escritor Divergente não deixa de ser, também, uma contradição urgente e necessária do sistema geral dominante.

Por isso, sempre que o Escritor Divergente fala, enquanto consciência de sua identidade e papel na atuação do coletivo, se expressa, literariamente ou não, a partir de conceitos e definições culturais que não deixam que se obscureça os elementos políticos e trabalhistas de sua experiência.

O Escritor Divergente, por conta própria e auto-determinação, mais cedo ou mais tarde, saberá o quanto foi, é ou será inoportuno e agressivo às demandas das belas letras e das folclorizações contemporâneas interessadas.

O Escritor Divergente espantará a muitos que giram noutra vibração (isso é bom!).

O Escritor Divergente consciente sempre saberá que, sozinho, fica tudo bem mais difícil, mas estar junto é um exercício, por vezes de muita entrega e autocentramento - doloroso demais.

Ele saberá que cada qual que o cerca, aproximado pelas dissonâncias, tem uma dúzia de conflitos cotidianos para cuidar. Tem seus próprios mil quilos sobre o ombro pra carregar.

O Escritor Divergente escreve sabendo que, quando toma suas decisões mais radicais, influencia, para o bem ou para o mal, o ânimo e/ou o trabalho de cada um de seus pares, independente de sua vontade.

Por isso o Escritor Divergente se reconhece e se aceita como engrenagem de um mecanismo maior que sua experiência individual.

O Escritor Divergente é ciente de que suas decisões não podem ser, pura e simplesmente, fruto de uma postura ego-centrada.

Para esse Escritor Divergente tratado aqui, não há mais inocência ou engano nas suas posturas, com certeza. Há escolhas e decisões: corrompidas ou não.

A existência do Escritor Divergente consciente “em si” reitera sua “própria” verdade!

O Escritor Divergente sabe que, antes de ser escritor, algo maior o condiciona.

Por isso não se adapta aos conceitos e políticas, oficiais ou não, que universalizam a escrita literária como se fosse uma - e una.

O Escritor Divergente é aquele que, no seu texto, e não no seu corpo, endereço ou história social, materializa a sua divergência em conteúdo e forma. Faz-se na sua obra concreta! Logicamente, a vivência é seu combustível... nas seu texto é tão e somente seu cartão de visitas.

Parágrafo único: não há Escritor Divergente sem Escrita Divergente!!

Condição mínima: o Escritor Divergente só o é enquanto for Incorruptível na sua Escrita Divergente!

Ser Escritor Divergente não é situar-se às margens ou periferias dos conflitos.

Ao contrário, o Escritor Divergente nasce no centro do Problema. Sua escrita enuncia-se do centro da Discordância. Sua razão de ser literária habita o olho do Furacão.

Por isso o Escritor Divergente transforma em linguagem sua sempre e eterna dificuldade de Ser e Estar. Não aceita compreender e conviver alienado, conformado ou pacificamente com situações que combate na vida!

Das duas, uma: ou o Escritor Divergente expressa seu desconforto e desconfiança ou o Escritor Divergente instaura desconforto e desconfiança.

A literatura do Escritor Divergente não é seu refúgio, mas sim seu fronte possível no combate em defesa de uma identidade positiva e da liberdade de expressão. Além de fonte de prazer espontâneo!

Sem medo de ser mal interpretado, dentro de suas mais arraigadas convicções literárias, o Escritor Divergente sabe em que consiste seu talento na escrita que faz.

Ele sabe também da potencialidade comercial de seus escritos!

Em liberdade política e criativa ou, então, cooptado pelas instâncias tradicionais de consagração, o sucesso do Escritor Divergente é possível.

Ele sabe! Ele escolhe!

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Só o tempo tira a prova real das verdadeiras verdades sem contestações retóricas!

Nelson Maca
Escrever para tentar me achar!

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