sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Calma, Maca!

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Calma, rapaz!


Então
Eu resolvi afundar os negreiros
Afogar capitães e marinheiros
No mesmo sal do mar que me sugava os restos corroídos
Foi quando esta voz sussurrou ao meu ouvido:
- Calma, Rapaz!

Então
Eu resolvi incendiar a casa grande
Queimar as sinhás e sinhôs
Com o mesmo fogo do ferro que me fritava a carne
Foi quando esta voz sussurrou ao meu ouvido:
- Calma, Rapaz!

Então
Eu resolvi contaminar os alimentos
Para liquidar os donos do algodão e do fumo
Com o mesmo veneno que me inflamava o banzo
Foi quando esta voz sussurrou ao meu ouvido:
- Calma, Rapaz!

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Então
Eu resolvi alvejar a cabeça do capitão do mato
Para dominar o campo de batalha em que eu vivia
Com o mesmo trabuco que me atingia as costas quando eu fugia
Foi quando esta voz sussurrou ao meu ouvido:
- Calma, Rapaz!

Então
Eu resolvi cortar a garganta da princesa de maio
Para exterminar de vez as falácias da abolição
Com a mesma navalha que me decepava os dedos de negro fujão
Foi quando esta voz sussurrou ao meu ouvido:
- Calma, Rapaz!

Então
Eu resolvi seqüestrar o dono da fábrica
Para reparar as deficiências do meu salário que é o mínimo
Com a mesma neutralidade que me seqüestraram a força ativa
Foi quando esta voz sussurrou ao meu ouvido:
- Calma, Rapaz!

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Então
Eu resolvi socar a boca do primeiro filho da puta que aparecesse
Para sangrar a oligarquia dos que sempre nos calam
Com o mesmo punho cerrado que sempre nos socaram
Mas esta voz ainda sussurrou ao meu ouvido:
- Calma, Rapaz!

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Poema do livro Gramática da Ira / Fotos sequestradas da net!

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Um comentário:

Opanijé disse...

"não me peça p ter calma não, eu já não tenho mais. Perdi a conta, não sei + contar até 10" - DMN