terça-feira, 12 de agosto de 2008

Passado: Privilégio ou Merecimento

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Negros e Brancos no Brasil:
um passado que absolve, mas condena!*


O dia que o Brasil encarar de frente seu conflito racial será um momento de coragem e ousadia em prol da sobrevivência da salutar diversidade étnica. Para tanto não se pode mais fugir da necessidade explícita de um movimento geral de Reparação pelas perdas materiais e simbólicas, físicas e psicológicas, legais e morais, sofridas pelo povo negro como herança de nossa experiência histórica. Não tem como desviar da rota que nos apontam as Ações Afirmativas. Nunca é demais lembrar que o Brasil foi o último país a abolir o sistema de produção escravista, não apresentando até hoje um plano com “justiça de transição”, único que pode possibilitar o ritual de passagem de um regime escravocrata e racista para uma ordem democrática e igualitária que não seja pautado nas falácia da democracia racial nem na estratégia da ideologia do branqueamento.

Isso deve ser compreendido e pautado, com certeza, como política de Estado. Não há como equalizar as feridas ainda abertas sem acertar as contas com os traumas do passado. Sem um olhar retrospectivo, sem resolver as demandas da escravidão e seus desdobramentos, não haverá a consolidação da cidadania do povo preto. Aqui também trata-se do Estado de Direito, do fortalecimento do regime de Direitos Humanos no Brasil.
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Se nós, negros, não enfrentarmos o debate do racismo arraigado nas estruturas de nosso estado, tratando-o não como uma vingança ideológica, subjetiva e pessoal, mas como uma questão histórica, social e coletiva, quem o enfrentará? Temos que nos manifestar de todas as formas possíveis a respeito disso, encarar a questão como uma espécie de guerrilha preta mesmo quando sem armas de fato e sangue aparente.

Não há como enfrentarmos efetivamente esse problema grave da história do negro no país com desconhecimento das verdades factuais e apagamento de nossa memória coletiva. Isso não é, apenas, um direito individual de cada homem e mulher negra, mas uma obrigação de toda a sociedade brasileira. Não tem como apagar a urgência de tomada de posição vanguardista daqueles que trazem em suas veias laços consangüíneos africanizados. Principalmente para nós, conhecer a história é vital na luta pelo direito à identidade étnica e à herança material do país.
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Nosso maior drama, então, é o seguinte: não há justiça sem informação. Só nos confedera buscar sempre e tornar pública as informações precisas sobre a atuação da escravidão, a construção do preconceito e a devastação do racismo. Saber de seus mecanismos, para evitar sua reutilização mesmo dissimulada. Dói, eu sei, mas é uma questão de sobrevida sabermos quando e como ocorreram esses crimes, quais circunstâncias, porque os africanos foram e continuam sendo atingidos, explorados, torturados, mortos, subjugados e exterminados. Mais que um direito, conhecer a verdade, nosso passado e nosso presente, é uma questão essencialmente ecológica.

Esse é o ponto. Assim se desenvolverá o exercício de reconstrução e auto-preservação de nossa soberania física e cultural. Por isso nossa necessidade e responsabilidade de investigar, processar, punir, reparar os casos que ainda esperam por soluções. E se nós não fizermos isso, outros farão... por nós... porém do jeito que eles sempre têm feito!
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Não há como ser patriota. Devemos, sim, condenar dia e noite nosso sistema político e social. Para defendermos o Estado como nosso de fato, primeiro ele deve privilegiar o enfrentamento da discriminação e do racismo como doença estrutural. O Estado deve assumir o enfrentamento de seus próprios vícios em prol do direito à Justiça dos descendentes de escravos e das vítimas de seu racismo institucional, reinterpretando, reavaliando, revisitando o conflito que nos determina, situação absolutamente incompatível com o grau de desenvolvimento do país.

Aqueles que criticam as posições oriundas do movimento negro mais destemido, como as cotas em universidades públicas, atestam temer que a revisão das leis possa criar um regime separatista no Brasil (como se já não existisse tal realidade bipartida). No fundo, o que pauta tal desconfiança é o medo de perder privilégios que pensavam eternos e hereditários. Procuram passar à população a idéia de que o fim da escravidão promoveu a ruptura integral com o passado colonial brasileiro.
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*Lendo a excelente entrevista da Professora Flávia Piovesan sobre a discussão da Lei da Anistia no Brasil , escrevi esta espécie de livre comparação. Utilizo os principais argumentos da professora aqui, porque achei incrível como discutir punição dos assassinos e torturadores do golpe militar no Brasil tem a mesma “tensão” que discutir Reparação e Ações Afirmativas.

5 comentários:

Anônimo disse...

Maca,

mano que fita louca estas fotos, né não?
Caralho, a burguesia, parece que não está presente, fisicamente falando, mas basta uma pequena ameaça ao status quo deles, eles vão à rua, armados de hipocrisia.
O bom é que eu já sinto uns focos de resistência espalhados pelo país.
Maca, tem outra coisa que eu fico pensando:" a gente fica na luta o tempo inteiro que às vezes até a cerveja que a gente toma tem gosto de lágrimas, de sangue."

No respeito e admiração,

Sérgio Vaz

Nelson Maca disse...

Isso mesmo Sérgio Vaz, e sempre lembrando que nossa burguesia tem cor e passado, né irmão?
Nelson Maca

Opanijé disse...

"Cotas é só o começo, eles nos devem até a alma!"

Perfeita a matéria! A foto do "Rebelde" diz tudo!!

"O opressor ameaça recalçar as botas" - GOG

Opanijé disse...

É só a ameaça ser real q caem as máscaras dos "bons brancos" ou daqles q tem o "pé na cozinha" eles nos reservaram um lugar na sociedade e qerem q a gnte finja q não é negro, enquanto eles fingem q não são racistas. Esse acordo silencioso quase funcionou por muito tempo, mas sempre teve brechas e é por elas q estamos entrando. Realmente falta só uma gota, né? p mim ela já tá escorrendo da torneira...

Rangell disse...

Salve família, tá quase mais tá pronto, www.positivoz.com