quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Quem quer ser o Mister Afro-Universo?



Quem quer ser o Mister Afro-Universo?*


Ultraje de banho

Olha, realmente, tô meio acuado, meio sem ação… tão desconfiado de tanta euforia como das bestiais reações racistas diante dessa conquista negra-angolana! Uma Miss Universo que veio do negrume da África!


Ultraje de gala

Muita reflexão cultural, muitas frases soltas na estrutura profunda da minha cabeça, mas ainda sem unidade textual possível na ponta da língua, para demonstrar compretência verbal. Enfim sem forma definida para uma argumentação corrida e reflexiva; fala coesa o coerente!


Ultraje típico

Contudo, pra não sair batendo a torto e a direito, deixarei que a poética divirja nas passarelas destas mal trançadas lindas!

Porque lembrei-me de dois poemas que tatam de mulhesre negras modelares. O segundo é de minha autoria e o primeiro uma livre-tradução que fiz de Miss World de Benjamin Zephaniah.

Eles representam grande parte do que consigo destoar na sublime hora dos festejos legitimadores das vitórias das misses universo – todas – e produtos derivados – todos.


Deslize na passarela

As que desfilam sempre paradigmaticamente galantes, pisando nas passarelas de nossos sonhos roubados, pintando nas telas da nossa vida alheia como ato compensatório e respositório do imaginário. Moças oásis quase sereias no fundo poço de nossas misérias universais!



Prêmio de consolação

Mas vou mantendo a calma, claro, pois há sempre a possibilidade de levar, ao menos, o prêmio de Mister Simpatia!


Critério para desclassificação

A beleza é seu ponto de vista
Vale mais que prata e vale mais que ouro
Se eu digo que eu sou lindo
Significa dizer que a beleza é em mim possível
Você estabelece o que é a beleza

Para as pessoas que você encontra normalmente
Sua beleza pode parecer agradável ou não
A beleza não deixa de ser uma preferência

Minha irmã, por exemplo, é uma bela mulher
Mas ela não quer ser miss universo
Sua estética não tem preço
Vale muito mais que a pérola

Minha irmã é uma bela mulher
Eu diria que ela é um encanto humano
Ela poderia ir embora e perder o contato
Mas ela prefere ficar e lutar
Suas pernas são duras e fortes
Ótimas para a defesa pessoal
Seus passos crepitam com fogo
Portanto não a censure
Portanto não mexa com ela

Ela não desfilaria numa passarela
Para provocar o delírio sexual das pessoas
E você jamais saberá seu peso
Idade ou tamanho do busto

Ela não quer fazer parte deste comércio
Para ser admirada como uma escrava

Esse tempo já passou
Portanto, enterre seu julgamento num túmulo
Pois ela não precisa fazer parte desse mercado
Ela está pronta para vencer de outra forma

O poder da beleza não se disputa
Ela não precisa desfilar para as pessoas
Eu falo das pessoas que julgam você pela aparência
Dando a você uma nota, um valor, e com olhos delirantes
Todos que te cercam olham para você, e julgam sua vida
Através de uma olhada superficial

Minha irmã é uma bela mulher
Mas ela não quer ser miss universo
Sua personalidade não pode ser avaliada por nenhum júri

Minha irmã é uma bela mulher
Ela não precisa de disputas
Você não pode colocá-la junto de outra mulher
E julgar quem é a melhor

Você não pode – finalmente
Julgar o coração de minha irmã
Olhando para os peitos dela

(Miss Universo / Miss World - Benjamin Zephaniah)


Desclassificado

Resolvi fazer aquele poema de amor que ainda não fiz para você, Negra!
Andei tão obstinado no exercício de minha Ira poética que,
em tempos de paz interior e trégua mundana, amar em silêncio e sigilo
superou qualquer necessidade de divulgar meu erotismo ao público.
Mas, apesar de segredar um íntimo que me torna cúmplice em desejos,
me nego a ser o poeta que cantará as ondulações de sua presença.

Falo a você como falo a uma irmã, uma amiga, parente distante, conhecida apenas.
Sem apologias traiçoeiras, faço desses versos meu capítulo das negativas.
Sei que você me entende, sei que algumas mulheres me entenderão…

Por isso dedico também este testamento lírico a vocês, poetas libatas
que dissecam meninas de carapinha como peças de consumo pontual.
Descamam seu dorso como fossem peixes de rabo grande na rampa do mercado.
Desembrulham seus corpos sagrados sem cerimônia…
Desnudam suas intimidades como trufas de chocolate africano
para o consumo em versos de celofane em poemas arianos…

Meu amor já foi bem mais além daquela quebrada que não tem mais volta.
Por isso se apagaram em mim as princesinhas, deusas, cinderelas
ou qualquer dessas meninas saídas dos contos de fadas alheios
que ainda nos desviam do caminho de casa,
que ainda aterram a profundeza de nossa memória erótica ancestral.

Também não me convencem mais esses derramamentos convencionais.
Até mesmo esse eco-eco anti-anti-antigo de gatona, gata, gatinha me incomoda.

Quem sabe aquela pantera ainda animalize minha inspiração.
Uma pantera dentro e fora da casa e que circula pelas ruas da cidade
Uma felina no privado e no público, uma fera na cama e fora dela!
Uma mulher que na amplidão da história e no andamento do tempo que lhe cabe
amplia em energia vital a validade do corpo objeto, do desejo da matéria
e do princípio do prazer.

Uma potência sexual profunda que não negue seu corpo no futuro que virá infalível.
Que amanhã não seja mancha seca de esperma
Apenas lembrança no papel amarelado pelo desuso.

Não, não sou eu que exporei moças prontas pro abate nas feiras galantes.
Não sou eu que exporei peitos de mulheres leiteiras nas vitrines de açougue.
Não pendurarei ancas robustas em ganchos oferecidas como peça nobre.
Não pesarei coxas e pernas temperadas para forno e mesa.

Meu poema não será a alavanca que suspende a ereção do Sinhô.

A fita métrica com que meço o perímetro do seu tórax
só quer revelar o tamanho exato do seu amor pela liberdade,
que a grossura de suas coxas de carnes rijas e a lisura de sua pele
são a dimensão de que se pode atravessar os amplos caminhos da exclusão,
e que a sua barriga assim em contraste com as ondulações acima e abaixo
pode absorver os golpes baixos do escravismo sexual.

Assim, sem olhos esbugalhados, sem boca salivando, sem pau duro,
resolvi fazer aquele poema de amor que ainda não fiz para você, Negra,
Para dizer que te amo para além do que se deva dizer aqui.

(Amor de carapinha – Nelson Maca)


*Texto de Nelson Maca
Publicado simutaneamente no www.blogbahianarede.blogspot.com)



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